Muitos perguntam quais foram as causas que me motivaram a sair do núcleo de uma produtora artística em ascensão, além de me afastar do mundo de “quem faz e vive de arte” como um todo. A resposta é bem simples: acabou a motivação, a coragem e percebi que não vale a pena gastar neurônios à toa. Este meio é quase que somente constituído de reclamações, desorganização, ganância e prepotência, ou mais ou menos isso. Acho incrível alguém gostar de trabalhar no ramo, e sei que tem muita gente séria metida no procedimento, mas todos os flancos estão cercados por pessoas mal intencionadas. Enfim, vou dar alguns exemplos meus neste processo e espero que as pessoas que nada tem a ver com isso entendam que não estou generalizando. Cada um sabe o que faz, ou fez.
A primeira coisa que mais chateia é a hostilidade de alguns donos de bar, que mais parecem fazer parte de uma grande e organizada máfia. São aqueles cartolas que fumam charutos, possuem anel com um baita rubi e colocam seguranças por perto enquanto você negocia com o figurão. Para eles o que vale é a grana, seja de forma lícita (por meio dos lucros do show), seja de forma ilegal, arrecadando alguns reais a mais que seriam destinados às bandas e/ou produção. Acreditem, isso ocorre o tempo todo, ainda mais com as pequenas bandas. Ah, e não adianta nada fazer contrato, nada mesmo. Outro grande problema das casas noturnas é o equipamento de palco, principalmente quando o concerto é fora de Curitiba. Infelizmente pode-se contar na mão quantas casas oferecem o mínimo de assistência e equipamentos.
Por segundo vem a falácia das pessoas. Pela frente é um sorriso lindo, por trás é um chute na nuca. É a típica reação de músicos, produtores, técnicos de som, donos de estúdios, selos, festivais, jornalistas, donos de blog, enfim, uma nata da falsidade. Não sei ser chupeta, então sempre me dou mal, principalmente com leis de incentivo. Já vi muita gente infeliz com trabalho sério produzido aqui. Se infelizmente o público de Curitiba não conhece as boas bandas (ou o que não é hype), como, por exemplo, o Hurtmold – que para encher o 92º tivemos que apelar ao público catarinense – não adianta ficar de cara feia para quem produziu. Tem que imaginar que esta pessoa tentou, certo? Afinal, todas as ferramentas foram utilizadas, como matérias em jornais, colagem de cartazes, flyers, boca-a-boca, divulgação na net, enfim, houve estratégia e empenho. Há ainda alguns que gostam de “dar gelo”. Quinta série, saca? Pois é, acontece, não deu... não deu!
E quanto às bandas? Bem, assunto complicadíssimo este. Há excelentes bandas que se comportam como bandas pequenas; e claro, a grande maioria é exatamente o oposto. E é aí que entra mais um setor (terceiro motivo) que me fez perder a vontade de continuar no negócio. São pessoas carentes, que querem o sangue, a idéia, o cérebro e sua presença a qualquer custo. Cansa, ainda mais quando a coisa soa retorcida. Enfim, como proceder? Difícil, não? Afinal, ninguém está preparado pra ouvir que sua banda não é boa, ou então que ela não é a atração principal e deve fechar a noite (nem que seja 5h da manhã – erro da produção e/ou erro do público que chega tarde) e acaba produzindo um clima hostil numa noite que deveria ser calma e divertida. Como músico, gosto daqueles que chegam depois do show e dizem: “-respeito seu som cara, mas não gostei não por isso, aquilo e aquilo mais...”. Aí sim vale a pena começar um bate-papo musical, até porque as outras pessoas que formam seu público são seus amigos de longa data e que você conversará de qualquer jeito, pois a festa é pra eles. Os grupos musicais, infelizmente, são extremamente desorganizados. Não possuem o mínimo: release, discos, clipping, etc. Não possuem equipamento decente, mas isso até vai, já que bons instrumentos e acessórios são muito caros.
O quarto item diz respeito aos cobiçados festivais e falo como integrante de banda. Para seu grupo ser incluído na lista, tem que conhecer fulano pra chegar em ciclano, que assim vai falar com mais um nêgo, aqui e lá, e você tem que conversar, às vezes, com pessoas que você não gosta, e tudo isso por amor à música, afinal você não ganha absolutamente nada. O grupo até tira dinheiro do bolso, sabia? E no fundo fica a questão: será mesmo que precisa? E quando inseridos nestes, há uma falta de respeito com sua música e com seu estilo sonoro. Mesmo que você faça um acordo, firmado duas semanas antes, ou meses atrás, sendo este acordo um pedido único e exclusivo e de extrema importância para a execução da sua música, no final você perderá o round. Acontece. Novamente citando o Hurtmold: eles ganharam muitos fãs ao rejeitarem o convite para o Curitiba Pop Festival por não os tratarem com o mínimo respeito em relação ao seu show. Achei sensacional.
Bom, na soma de todos estes fatores, alegro-me em ser um geólogo.
Espero um dia apenas gravar com a banda que faço parte, lançar discos pros amigos (que são eles mesmo que prestigiam) e reunir o povo na minha casa para beber e papear.
Nada mais, nada menos.